Desapego

Morei por 2 anos no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas roupas, três canecas, um violão e fotografias. O resto, eu vendi tudo, e por tudo entenda-se: TVs, camas, louças, torradeira, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa.

A sala de jantar foi uma das primeiras coisas que se foi. Às vezes o celular tocava às 11 da noite, era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante ou uma mesa. Eu convidava pra aparecer no outro dia e em instantes negociávamos um belo desconto e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas.

Um trem maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu.
No penúltimo dia, ficamos somente com o colchão no chão e o 3G do celular. No último, só com algumas coisinhas de cozinha, e mesmo assim fiz um café da tarde e um amigo secreto para aquelas que fizeram toda a diferença na minha estadia ali, naquele país frio e cinza.
O zelador aguardou até o ultimo instante e ganhou toalhas de banho, uma mesa e alguns utensílios de limpeza. Compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar.
Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar.
Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto isto, o que se torna cada vez mais difícil, é me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que elas estiveram presentes na minha vida.
Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando todas as emoções e sentimentos: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Pagamos excesso de bagagem, apenas por questões da companhia aérea e chegamos aqui com outro tipo de leveza: “Só possuímos na vida o que dela pudermos levar ao partir”.
É melhor refletir e começar a trabalhar o DESAPEGO JÁ!
Não são as coisas que possuímos ou compramos que representam riqueza, plenitude e felicidade. São os momentos especiais que não tem preço, as pessoas que estão próximas da gente e que nos amam, a saúde, os amigos que escolhemos, a nossa paz de espírito e a experiência de vida!
(Adaptação do texto de Martha Medeiros, porque mesmo parecida, cada um tem a sua história. – Carol Hahmeyer)

Carol Hahmeyer

Carol Hahmeyer, paulista de RG, goianade coração, psicóloga e fotógrafa.
Amante das palavras, de chocolate e das almas de bem.
Minha melhor parte é ser livre e ter me tornado Mãe.

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